sábado, 21 de junho de 2014

Raios e Borboletas



Como uma bruxa enamorada, congelei na retina dos meus olhos cada segundo de instante em que cada um dos meus amores, me possuiu.
O beijo na testa de boa tarde, entrou como flecha envenenada, rasgando tudo por dentro. E se instalou, certeira, na mais profunda das entranhas. Ela faz parte do meu corpo e, como uma imagem sagrada milagrosa, chora sangue todos os dias.
De outra vez, quando eu ouvi na despedida "- vai com Deus", me senti a mais protegida das mulheres! uma fada virgem, cercada de anjos de cor de rosa. Naquela noite, cheguei em casa como quem chega ao paraíso. E entreguei minha alma pura para o estranho de olhos verdes.
Nunca mais me libertei.
E de novo, um beijo na testa amoleceu meu coração. Beijo que se fez de bobo: escorregou terno até minha boca e se fez eterno. Se perpetuou, deu crias, espalhou estrelas.
O inseparável cigarro entre os dedos, os longos cabelos negros caídos sobre os olhos, o andar sempre em passos largos... faziam daquela figura o mais perturbador dos homens. Mas naquela manhã perdida no tempo, os olhos misteriosos se abriram e cruzaram os meus como uma chuva de raios na tempestade.
Foi a senha: a partir dali, todos os dias trocávamos discretos sorrisos, palavras poucas, fortes palpitações. Enfim, o encontro ardente dos corpos. Na longa noite à dentro, o furacão se fez vento leve e seguiu viagem por aquela longa estrada, tomada pela luz do calor intenso do sol morno do amanhecer.
Até que outro sopro me envolveu com a força das asas de uma borboleta.
Elisa.
O meu nome dito assim: leve, suave, calmo, doce, baixo, claro, cristalino, transparente, sereno... fez um eco tão apavorante, que corri assustada para debaixo da cama, me escondi calada no escuro, temendo ser agarrada pelo monstro de lábios de mel.
(e. m.)

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