| Paraty RJ |
" - como eu gosto de bicicleta!!"
Subir na bicicleta e tomar o rumo que o vento levar, é um ato de liberdade, a primeira transgressão de uma criança. A aventura de partir em alta velocidade, montado em duas rodas , sabendo que vai voltar, mas deixando nos outros a incerteza da volta, provoca uma euforia na alma infantil que jamais se esquece. É a fuga de mentirinha, o sumiço de poucas horas ou poucos minutos dos olhares vigilantes .
Menina de 8, 9 anos, eu morava na Vila Planalto, no acampamento da Rabelo, uma espécie de condomínio de chão de terra batida, onde viviam operários, funcionários públicos, migrantes... todos em harmonia dentro da mesma cerca. A minha aventura era pegar a bicicleta e ultrapassar os limites, chegar em outras ruas e descobrir seus encantos. Fazia isso com o coração na boca, assustada, com medo do imprevisível.
Procurava atalhos, admirava as casas, catava frutinhas do cerrado ... e voltava esbaforida, antes de ser descoberta. Um dia levei um tombo porque a borracha do guidom saiu na minha mão. A ponta do ferro bateu no canto da minha boca e fez um pequeno corte, sangrou mas eu não podia confessar minhas fugas e agüentei firme. Adoro a cicatriz que trago até hoje, sinal de uma bela lembrança .
Tempos depois, nos mudamos para a Asa Sul e a bicicleta continuou sendo minha companheira de passeios e exploração da redondeza. E também um instrumento perigoso nas mãos de uma Elisinha endiabrada. Uma vez briguei com a Patricia, minha melhor amiga, e resolvi castigá-la.
Ela emburrada, teimava em ficar encostada no carro com as pernas esticadas, provocativa. Eu, sem a menor dó, guiando em círculos, passei diversas vezes com os pneus da bicicleta em cima dos pesinhos finos dela. E ela firme, não chorava e nem pedia para eu parar. Foi um duelo de titãs!
Quando comecei a trabalhar, a primeira coisa que comprei com o meu primeiro salário foi.... uma bicicleta! Cor de rosa, com cestinha, como essa que me encontrou em Paraty. Era uma Caloi Ceci, o bibelô da época e eu achava a coisa mais linda! Numa tarde de sábado, fui até ao Conjunto Nacional e comprei o meu possante à vista, bem metida. Dispensei a entrega e fui pilotando minha Ceci entre as quadras até a 112, onde eu morava. Cheguei lá exibindo minha Ferrari com o maior orgulho: a bonitona era minha, comprei com o meu dinheiro!
Um dia, talvez pela lei do retorno ou praga da Patrícia, fui perseguida por uma matilha de cães enfurecidos, que pareciam querer me comer viva. Na intenção de chegar rápido na beira do lago, em embrenhei no mato entre a L2 e a avenida das Nações. Lá no meio, tinha uns barracos bem miseráveis e ao me aproximar, surgiu a cachorrada voando em minha direção. Sempre tive muito medo de cachorros, fiquei apavorada!
Fazer o que?? acho que gritei por socorro mas não apareceu ninguém. Se eu descesse da bicicleta, os bichos me avançavam. Continuei pedalando forte e espantando com chutes os cães com os dentes mirando minhas pernas. Nada me aconteceu por puro acaso porque o cenário era perfeito para eu ser destroçada !
Em compensação, num dia guardado com carinho na minha caixinha de lembranças, um príncipe me levou para casa, de madrugada, na garupa da sua bike. Vimos a manhã chegar navegando no deserto verde do Eixão, ao som do vento e gritos do sol. Foi de fato um belo amanhecer !
Também já naveguei na areia úmida da beira mar. Que delicia! A bicicleta desliza como as gaivotas, vai longe, rumo ao infinito. É a tal sensação de liberdade que te esbarra no caminho. Voltar pra que??
A praia é longa, vazia, linda, tem piscinas com peixinhos coloridos, pescadores que surgem do nada e te cumprimentam com sorriso largo. A bicicleta já me levou várias vezes ao paraíso !
Hoje em dia, ando pouco na minha bicicleta. Ela fica lá, trancafiada num quartinho da garagem, que só o zelador do prédio tem que a chave, e é difícil o processo todo de libertar a bicicleta. Isso me faz pensar agora o quanto eu estou lutando pouco pelo meu direito de explorar novos caminhos, deixar o vento contra bater forte no meu rosto e me levar para longe, para o novo desconhecido !!!

"um ato de liberdade"
ResponderExcluirAdorei o conceito: Pedalar = Liberdade